Dois elementos do INFANTRILHOS tiveram a oportunidade de fazer o caminho português de Santiago, integrados num grupo de 11 elementos, nos dias 31 de Julho, 1 e 2 de Agosto.
Perante um evento desta natureza levantaram-se fortes expectativas em todos os participantes, principalmente para aqueles que se estreavam, como no meu caso. Essas expectativas deveram-se, não só pela mística que os caminhos de Santiago proporcionam a todos aqueles que têm oportunidade de os percorrer, como também pela distância e pelo convívio que se consegue criar no seio do grupo onde estamos integrados. Acima disto, agora, só com a realização do caminho francês.
O início do percurso fez-se em Ponte de Lima, vila das mais antigas de
Portugal, duma beleza impar e intocável. A manhã apresentou-se com um céu
limpo, proporcionando uma luminosidade à vila digna de uma imagem de postal. O
granito é o elemento predominante, presente nas casas, nos monumentos e nos
caminhos, numa arquitectura que preserva em muito a herança histórica e
cultural de outros tempos.
A primeira etapa contabilizou 45 Km entre Ponte de Lima e Valença,
incluindo alguns km de ligação entre a residencial e Ponte de Lima e outros km
colaterais para fotografias. Este troço apresenta-se bem marcado, com um
traçado muito agradável para quem gosta de percursos técnicos, por vezes
trialeiros. O alcatrão aqui é raro, ao contrário daquilo que iremos encontrar
nas etapas seguintes. O calor foi uma presença constante que só pôde ser
aliviado junto aos rio e ribeiras por onde passamos e tivemos oportunidade de
nos refrescar, ou nos sombrios caminhos vedados ao sol pelas latadas de vinha.
No segundo dia concretizamos a etapa entre Valença e Pontevedra, numa
distância total de 65Km. O traçado passa por algumas localidades, incluindo
duas cidades, Tui e Redondela. O asfalto está mais presente, o símbolo de
Santiago (a vieira) surge na sinalização do caminho a par das famosas setas
amarelas. Nas localidades, face à maior presença de movimento e ‘lixo’ urbano,
torna-se mais difícil a orientação porque os sinais tornam-se mais
imperceptíveis.
Apesar do traçado não levantar grandes dificuldades técnicas aos
infantrilheiros, por norma alérgicos ao alcatrão, não foi por isso que
deixamos de gostar de fazer este
trajecto. Existem vários trilhos apaixonantes de puro BTT e a componente
histórica ao longo do percurso é uma constante (as pontes e calçadas romanas,
as capelas e igrejas com séculos de existência, os cruzeiros a demarcarem o
caminho).
No terceiro e último dia fizemos a ligação entre Pontevedra e Santiago
de Compostela, cerca de 80 Km, com um traçado idêntico ao do segundo dia, com
algum alcatrão. Nesta altura já nos cruzávamos com bastantes peregrinos a pé.
Não tivemos nenhum contacto com peregrinos em bicicleta a não ser já em
Santiago.
Para qualquer peregrino que se preze, mesmo que não venha arrastado pela
fé religiosa, a chegada a Santiago é um momento único que traz sensações
inesquecíveis, associadas à dimensão humana, religiosa e cultural do lugar.
Passo a explicar, a concentração de peregrinos neste local é de tal ordem que
se torna surpreendente a mescla de cores e artefactos transportados por estes,
que nos fazem imaginar sobre as dificuldades que porventura ultrapassaram até
chegarem até aqui.
O espaço físico que corresponde à parte antiga de Santiago é de um valor
histórico, cultural e religioso ímpar em toda a Península Ibérica. Estamos a
falar de um local que começou a ser construído no ano 1075, mais concretamente
a Catedral, edifício construído sobre as ruínas de um templo pré-romano,
entretanto destruído por Almanzor, imperador árabe que controlou a Ibéria na
altura.
Para o ano votarei pela introdução deste passeio no calendário do Infantrilhos.
Boas pedaladas.